Minha Análise de “Ordem Vermelha”

Bom, esse texto é um pouco mais livre e com mais devaneios do que a “resenha oficial” que postei no Medium (pode clicar aqui se quiser ler). A princípio é uma análise pessoal sobre Ordem Vermelha: Filhos da Degradação, do Felipe Castilho.

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Sim, é cheio de spoiler! Se não leu ainda, corre comprar! Mas, se já leu, vamos lá pirar um pouco.

A princípio, eu acho que o maior problema de qualquer narrativa (seja livro, filme, série, tudo) é a diaba da expectativa. Nós criamos, trabalhamos uma ilusão do que queremos receber, e normalmente nos frustramos. Nossa capacidade criativa é tão única e seletiva que acabamos por criar um caminho que, muito provavelmente, não será seguido. Eu aprendi isso com algumas leituras, principalmente Steven Erikson, então tentei me adaptar, aceitando que a expectativa vem, mas tentando trabalhar com a reação dela durante a leitura.

Quando eu li o prólogo, tive dois sentimentos imediatos: “isso parece uma lenda falsa” e “espero que seja uma lenda falsa”. Tentei começar um texto analisando capítulo a capítulo, conforme eu lia, mas não deu nada certo, porque eu avancei freneticamente. Porém, o trecho de “A Fúria dos Seis e o surgimento de Una” está aqui:

“Lendas normalmente são fodas, e aqui ela tem uma cara de religião, principalmente pela visível distorção da história feita pelos dominantes. Amei a questão do número 6, sou um apaixonado por símbolos, procurando (até onde não tem, as vezes) padrões no texto. O número 7 se repete na natureza, nas artes, nas lendas, e Felipe cria uma força suprema que se sustenta no 6, o justifica e reforça. Mostra, ao mesmo tempo, sua fúria e misericórdia, o que me lembrou bastante da questão bíblica do arco-íris como aliança, algo como “essa foi a minha fúria, mas não farei novamente”, agora sou benevolente, sirvam-me.”

Então temos aí minha expectativa, que foi cumprida de modo virtuoso, mostrando até mesmo a adulteração do “texto original”, senti que o Felipe escreveu com a intenção de forçar a barra, direcionar, deixar desigual e “em débito”, e fiquei com um sorriso no rosto na cena do escriba, era exatamente o que eu senti.

Sobre o número 6, nesse trecho eu posso ter ido fundo demais. É engraçado como isso acaba funcionando em vários pontos na natureza: o 7 é mágico, 7 cores no espectro do arco-íris, 7 notas musicais, 7 anos para o Saci, e a deusa veio de 6 deuses, tem 6 faces, 6 raças (666 :v). Principalmente quando houve a questão do sétimo dia de descanso, aí reforçou essa ideia, me deixando cabreiro. É um número incompleto, torto e forçado, a pulga atrás da orelha criou um pingo a mais de expectativa. Então, quando a deusa caiu e a sétima raça, de elfos, surgiu, eu fiquei todo orgulhoso, pois encaixou no que eu estava pensando. Eu queria dar uma abraço no Felipe!

Outra questão que conversei muito com os leitores, e foi um ponto forte do texto, é a associação da identidade das raças com as artes. Os anões à escultura, os kaorshs à pintura, os sinfos à música e, finalmente, os humanos à escrita. Eu tinha sentido essa lacuna até ver Aelian lendo os textos antigos e se transportando ao passado, ficou bem clara a ligação dele com a arte. E, ao mesmo tempo, ficou bem clara a relação de poder com o corte à manifestação artística.

Essa relação do domínio sobre a cultura durante a dominação do povo é feita com maestria também, ao restringir as manifestações culturais à adoração a Una, eles criam um reforço à própria relação de poder. Ao tirar uma das cores, ela simboliza exatamente a quebra com o natural, curvando a própria arte à Deusa, isso curva a cultura e o próprio povo. A força que essa análise traz é linda.

A questão do poder, atrelado à religião, com um caráter distópico, num mundo medieval, também foi um diferencial imenso, e é onde acredito residir o principal ponto de discussão do livro.

Perceber essas linhas se entrelaçando é muito bom, a narrativa consegue ser firme e bem construída.

Outra coisa que me deixou muito feliz foi a atenção do Felipe ao escrever as cenas do Aelian, durante algum tempo ele não tem a mínima intenção de participar de qualquer revolução. E não é por conta de alguma jornada do herói, medo, frustração nem nada. É porque ele acredita naquilo. Ele é parte do sistema, está lá embaixo, quase na base de poder, sofrendo diariamente, e ainda assim aceita. É difícil trabalhar isso na narrativa, normalmente vemos protagonistas rebeldes, que sofrem e guardam um sentimento de rebeldia que cresce e explode durante o livro. Mas aqui não, ele não consegue conceber algo diferente daquilo, é como o mundo se apresenta a ele, e é como ele lida com aquilo. Sua frustração é com o líder imediato, com os próximos dele, mas ele não consegue nem ousar questionar o sistema. E é fantástico como isso representa a nossa própria sociedade.

O que nos leva a um dos pontos principais do livro, ele é uma alta fantasia, claramente. É um mundo novo e ímpar, mas o Brasil está estampado na escrita. Seja por se passar na periferia, com pessoas à margem da sociedade, uma visão de amor e cuidado com quem é menor, com quem está vulnerável, um amor e cuidado que brasileiros conhecem e que o Castilho traz com um primor incrível.

Amei como a kaita tem uma pegada linda baseada na capoeira! Esse tipo de elemento, assim como os assentamentos que remetem às favelas, conseguem criar uma empatia imediata aos brasileiros, sem restringir os outros leitores de modo algum, continua sendo alta fantasia, mas dá um orgulhinho. E é ainda mais fantástico, pois a kaita é usada como celebração com música e ritmo, dançada em duplas, e os movimentos são usados em lutas, com um ritmo que se passa na mente dos praticantes, o que reforça toda inspiração.

Uma das minhas reclamações, que encaixa com esse ponto, é que queria ver mais da Cora. A anã representa um estereótipo perfeitamente brasileiro, ela é crente em Uma, não vê os defeitos (dela ou do sistema) e, mesmo quando tudo está ruindo, luta pela sua fé, acima de qualquer raciocínio. Fiquei emocionado com essas sutilezas e construções do Castilho.

Outro lance fantástico foi a questão do gênero. Sim, o lance das Kaorshes é lindo, mas tem algo mais sutil e malandro que o Felipe fez. Os pais de Aelian são construídos aos poucos, apresentados não como vilões ou heróis, mas como humanos que erram na tentativa de uma vida melhor para o filho. Acabamos os amando e entendendo, criando uma empatia com eles. E então, lá na frente, no último terço do livro, é revelado, em um único parágrafo que é tratado com naturalidade pelos personagens, que são dois pais. Isso é tão sutil e lindo, uma malandragem que traz confusão a quem poderia ser contra o casal e um sorriso a quem percebeu isso. Eu sorri e quis (novamente) abraçar o Felipe!

O cuidado com a construção é claro, nos arcos individuais que se misturam e entrelaçam, trabalhando marginais à questão política principal, além dos pontos de virada que vem nos momentos esperados, mas, muitas vezes, diferente do que esperávamos.

Bom, é isso. Agradeço por ter chego até o fim, e mais: esse texto foi produzido graças aos apoiadores do Padrim (www.padrim.com.br/laurokociuba), se quiser apoiar mais textos assim, além de recomendar livros, análises e tudo mais para mim, apóia lá! 😉

Espero que tenham gostado da análise! ❤

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