Kibungo

O desconhecido se dobra aos desejos dos homens, devorando-os.

Ele foi feito de medo e fome. Como a maioria dos seres, não escolheu sua forma. Era um caçador, tinha que ser, ainda que suas presas tivessem nascido muito antes dele.

Em lendas contadas à beira do fogo, sussurros entregues a crianças rebeldes, que fugiam dos pais para explorar o mundo. Haviam perdido o medo de leões, rinocerontes e crocodilos, estavam acima deles, acreditavam estar acima de tudo. Mas os adultos não podiam aceitar isso, precisavam proteger os pequenos deles mesmos. Porém, sozinhos, não eram altos o bastante, então teceram uma lenda sobre a cabeça dos filhos.

Deram um presente às crianças: um caçador.

Possuía pernas e braços membros longos e flexíveis, que corriam de quatro, devorando léguas mais rápido que as pernas de quaisquer animal. Um dos braços era mais longo que os outros, no momento do bote, ele podia lançá-lo à frente, sem parar, mantendo a velocidade. Não parava nem para comer, sua boca ficava sobre as costas, atirava a presa para cima e abocanhava ao passar, seguindo para o próximo. Dois olhos pequenos e negros em seu rosto de pele negra e grossa, duas fendas de nariz e um rasgo sem dentes, só uma língua longa para um instante de sabor antes de comer.

Kibungo, o chamaram. E ele veio.

Nasceu nas sombras, filho do medo, da dúvida e das vozes dos homens. Seus três criadores o definiram, e o ensinaram o que e como caçar. E ensinaram que tinha muita fome, e que apenas o nascer do sol o saciava.

A carne tenra das crianças era seu único alimento, e ele cumpriu sua missão, com todo cuidado que os pais pediram. Só se mostrava às suas presas, cuidava para que nenhum dos pais o visse, abria o sorriso de dentes tortos ao farejar medo e solidão, que atiçava sua corrida. E sabia, mais do que qualquer outro, quebrar ousadia e afronta.

Não conhecia a língua dos homens, sabia que era kibungo, pois nascera com o nome, e foi o que lhe permitiu nascer, mas não sabia nada além de caçar. Então, quando vieram os homens brancos, capturando seus criadores, ele não entendeu.

kibungo estava na savana, deitado em meio a relva, com o rosto e a barriga no chão, farejava uma garota que estava por ali. Ansioso, esticava os braços e raspava a terra, enrolando a relva nas garras. Sabia que não fora criado para ser forte, apenas caçador, havia histórias de kibungos que morreram pelas mãos dos pais, que não se esconderam o bastante, e eram mortes fáceis com lanças e pedras. Ele sabia que era preciso esperar o momento certo.

Que não veio.

Levaram sua presa, sentiu o cheiro se afastando, amarrado em gritos e lágrimas. Não arrastando raiva e frustração por ser encontrada, mas pavor e medo, que deveriam pertercer a kibungo. Por isso ele seguiu a garota, saberia se fosse outro kibungo, mas não era, era um homem diferente, de outras terras e outros cheiros.

Esgueirou-se na relva, acompanhando os gritos, incomodou-se ao aproximar do vilarejo, era um território proibido para ele. Não apenas pelo risco de morte, mas por não ter sido criado para aquilo, sua terra era a de ninguém, a incerta e das sombras. Só que aquelas terras não eram mais dos seus criadores, e nem dos homens que chegavam, seriam de Kibungo, se não fossem da morte antes dele.

Os homens vieram e levaram muitos, tantos quanto podiam, e jogaram a garota junto com os seus. Ela não apanhou dos pais, pois eles não estavam ali, e quando seguiram caminho junto com os brancos que os carregavam, Kibungo foi junto.

Ele viu homens quebrando homens, partindo o que os tornava alguém e jogando no chão, para ser pisoteado por pés de irmãos e companheiros, não mais pessoas. Kibungo tentava entender, percebendo seus criadores acuados, dobrando as costas e a vontade, sendo levados a um mundo que não era deles. E muito menos dele.

Foi no navio que ele se perdeu.

Aquela casa imensa, que quebrava o deserto de água e sal, também destruía sua própria essência. A garota que era de kibungo, não era mais. Nem garota, nem dele. A viagem foi longa, seus criadores e suas presas foram destruídos, arrastados e presos. Houve resistência no começo, mas as ondas a engoliram, vomitaram sangue, corpos e vontade, se alimentando de vida. Numa brutalidade que kibungo não sabia ser possível, que era quase tão grande quanto sua fome.

Tornou-se um fiapo do que fora, uma lembrança pisoteada no fundo da mente dos seus criadores, que agora eram chamados de escravos. Acorrentados às paredes de madeira, jogados de um lado para o outro pelas águas e pelos brancos, o viam quase com um carinho, com um olhar paternal, uma sensação de casa. E isso o quebrou mais ainda do que a fome. Esgueirou-se entre as tábuas e corpos, escondendo-se enquanto esperava que aquilo tudo passasse, aquela loucura.

Mas não passou.

Menos de metade da metade dos que entraram no navio saíram, e ainda assim eram tantos, tantos. Pelo menos chegaram à noite nas terras novas, de cheiros novos. Kibungo esgueirou-se entre os seus criadores, que mal o percebiam, reduzido a quase nada pela falta de alimento. Não havia crianças que o temiam no navio, e ele mesmo parecia não ter vontade de se alimentar diante da grandiosidade daquilo. Não fora criado para isso.

Os grilhões se arrastavam pelo chão de terra batida, cada um era medido e pesado, e vendido. A cada pagamento, via seus antigos criadores se perdendo, e decidiu fugir, se afastar, esperar aquilo tudo passar.

As terras novas eram diferentes, a mata fechada tomara o lugar da relva, mas ainda sabia esperar. Tentou se acalmar, enrolando suas garras nas folhas, deitando e esperando. E viu que lá havia outros como seus criadores, e outros filhos deles. Talvez, estando ali há mais tempo, tenham passado. E crianças fugiam, era algo delas, e talvez tudo pudesse voltar a ser como antes. Esperou a primeira criança fugir, e não demorou muito para que acontecesse.

Acontecesse tudo diferente.

Os passos leves e desesperados vinham, o medo e pavor atiçaram seu nariz e fizeram a fome acordar, roncando e gritando vorazmente. Quando chegou a hora, se levantou. Estava fraco, mas ainda podia se fazer grande, principalmente por acreditar que estava voltando a ser kibungo. Mas caiu quando a criança o viu.

Não foi o susto da criança que o quebrou, nem o reconhecimento, pois a palavra saiu num suspiro dos lábios dela, “kibungo”. Mas foi a direção do medo, o garoto mal percebeu que ele o devoraria, preocupara-se em olhar para trás, pois a caçada dele ainda não havia começado. E só então kibungo entendeu. Aquela não era sua caçada, não mais, então voltou para as sombras e deixou que o filho de seus criadores mergulhasse no seu novo território.

Teria devorado os caçadores, se soubesse como, se pudesse. Mas se alimentava de medo de filhos fugitivos, as lendas eram claras e o amarravam. Ele, como tantos outros tantos kibungos, foram levados pelo mar, arrastado com os seus até aquela terra, onde tudo era errado e dos outros. Tudo mudou.

Então, ele também teria de mudar.

Primeiro, observaria para entender, já era algo enorme para ele, algo… humano. Recebera vida e forma de seus criadores, fome e foco, entendimento. E trabalhara bem para fazer jus a tudo que pediram, mas o mundo mudou, e não eram mais as crianças dos criadores que estavam acima deles, mas sim os brancos. E, da mesma forma que criaram uma lenda para colocar acima da cabeça das crianças, fazendo o parto de kibungo, agora ele poderia retribuir à altura.

Não se faz um leão comer batatas, ou uma girafa saborear pedras. Ele ainda precisava comer. Mas retribuiria aos seus donos agora.

Forçou suas pernas traseiras para ficar de pé, os brancos não temiam animais, os caçavam por prazer, temiam outros homens. Pintou sua pele de branco, não havia nem ao menos receio escondido na superioridade que eles acreditavam ter. Pintou sobrancelhas em seu rosto, e apertou para que ficasse mais parecido com alguém, ou ninguém.

Começou a se mostrar para crianças dos senhores, dos que se acreditavam donos. Ainda estava aprendendo, e não se alimentava delas, apenas do medo. E ele vinha, e cada vez mais saboroso. O branco da pele não era mais pintado, o medo e os boatos o tornaram assim. As duas patas se entenderam como pernas, e o braço mais longo se dobrou perto do corpo, como se estivesse ferido. Os relatos das crianças o moldavam.

Sentiu o rosto pinicar, uma penugem branca começou a crescer a cada dia, numa barba que escondia boa parte do seu rosto e sua boca desdentada. Do topo da cabeça, alguns fios ralos e esparsos caiam sobre as costas. Precisava de roupas – o medo do desconhecido é sempre maior, então vestiu alguns trapos velhos que encontrou por ali. Um grande pano sobre as costas cobria a bocarra, inchada, ansiosa e faminta.

Caminhava nos fundos de uma casa grande quando devorou a primeira criança. As pernas lembraram da velocidade da caçada, e o medo que era dele, finalmente, o fez correr para caçar. A criança branca tropeçou e chorou, gritando, temperando a refeição do kibungo, que, naquela forma, já quase esquecia o próprio nome.

***

Sorriu, lambendo os lábios molhados de esgoto. O holofote iluminava a entrada do rio Belém, que, a partir daquele ponto, mergulhava debaixo da cidade. Ele ainda era o mesmo, mais velho que aquela cidade, e tão faminto quanto ela, se aproximava da criança.

Aprendeu a faze com que o desejassem.

Ali, em meio a carros, câmeras e pedestres, gritos não eram tão ignorados quanto ele gostaria, principalmente de crianças. Então estendeu a mão mais curta, a garra torta imitava uma mão com unhas longas e imundas, na palma estendida, algo brilhava. Talvez a criança visse um videogame novo, um brinquedo desejado, um doce, ele apenas aprendia a fazê-la ver o que ela queria.

Abriu a boca sem dentes em um sorriso, estava cada vez melhor naquilo, torceu a cabeça para o lado, no que parecia dizer “está tudo bem, pode pegar”. E se aproximava da beira do rio, onde a criança estava, alguns minutos antes, catando lixo para ajudar os pais. As pernas longas mergulhavam na água imunda, se aproximando da criança, que só tinha olhos para a mão com a ilusão, mas não desfez o carisma falso, não podia correr riscos.

Quando a pequena se levantou, estendeu a mão para tentar alcançar, e suspirou, ele deu o bote. A mão inchada e atrofiada debaixo dos trapos se esticou, como uma serpente num bote. A mão de três dedos longos e moles se atirou no rosto, calando a criança. Voltou se enrolando ao redor dela.

A boca continuou com o sorriso, agora mais digno do sentimento dela, e colocou a outra mão no bolso da calça em frangalhos, escondendo o brilho. O braço do bote levantou o corpo pequeno, que tentava se debater, enquanto o que parecia ser um saco enorme nas costas se abria, como um zíper de dentes bagunçados e tortos que bocejava para a lua.

A criança caiu lá dentro e a boca se fechou, voltando a ser um saco. A criatura, que agora tinha outro nome, desfez o sorriso e voltou o braço à posição normal, atrofiada. Mancou para fora do rio e caminhou entre as casas. Logo amanheceria, algumas crianças estavam levantando para ir à escola, os irmãos menores querendo sair junto.

Ele sorria quando apontavam para ele, falando em voz baixa aos filhos mais novos: “Cuidado, o velho do saco vai te pegar!”

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Esse conto é um presente de aniversário ao Victor Almeida. Obrigado por ser tão querido, e garanto que o mundo agradece comigo. Espero que tenha gostado. E parabéns!

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Minha Análise de “Ordem Vermelha”

Bom, esse texto é um pouco mais livre e com mais devaneios do que a “resenha oficial” que postei no Medium (pode clicar aqui se quiser ler). A princípio é uma análise pessoal sobre Ordem Vermelha: Filhos da Degradação, do Felipe Castilho.

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Sim, é cheio de spoiler! Se não leu ainda, corre comprar! Mas, se já leu, vamos lá pirar um pouco.

A princípio, eu acho que o maior problema de qualquer narrativa (seja livro, filme, série, tudo) é a diaba da expectativa. Nós criamos, trabalhamos uma ilusão do que queremos receber, e normalmente nos frustramos. Nossa capacidade criativa é tão única e seletiva que acabamos por criar um caminho que, muito provavelmente, não será seguido. Eu aprendi isso com algumas leituras, principalmente Steven Erikson, então tentei me adaptar, aceitando que a expectativa vem, mas tentando trabalhar com a reação dela durante a leitura.

Quando eu li o prólogo, tive dois sentimentos imediatos: “isso parece uma lenda falsa” e “espero que seja uma lenda falsa”. Tentei começar um texto analisando capítulo a capítulo, conforme eu lia, mas não deu nada certo, porque eu avancei freneticamente. Porém, o trecho de “A Fúria dos Seis e o surgimento de Una” está aqui:

“Lendas normalmente são fodas, e aqui ela tem uma cara de religião, principalmente pela visível distorção da história feita pelos dominantes. Amei a questão do número 6, sou um apaixonado por símbolos, procurando (até onde não tem, as vezes) padrões no texto. O número 7 se repete na natureza, nas artes, nas lendas, e Felipe cria uma força suprema que se sustenta no 6, o justifica e reforça. Mostra, ao mesmo tempo, sua fúria e misericórdia, o que me lembrou bastante da questão bíblica do arco-íris como aliança, algo como “essa foi a minha fúria, mas não farei novamente”, agora sou benevolente, sirvam-me.”

Então temos aí minha expectativa, que foi cumprida de modo virtuoso, mostrando até mesmo a adulteração do “texto original”, senti que o Felipe escreveu com a intenção de forçar a barra, direcionar, deixar desigual e “em débito”, e fiquei com um sorriso no rosto na cena do escriba, era exatamente o que eu senti.

Sobre o número 6, nesse trecho eu posso ter ido fundo demais. É engraçado como isso acaba funcionando em vários pontos na natureza: o 7 é mágico, 7 cores no espectro do arco-íris, 7 notas musicais, 7 anos para o Saci, e a deusa veio de 6 deuses, tem 6 faces, 6 raças (666 :v). Principalmente quando houve a questão do sétimo dia de descanso, aí reforçou essa ideia, me deixando cabreiro. É um número incompleto, torto e forçado, a pulga atrás da orelha criou um pingo a mais de expectativa. Então, quando a deusa caiu e a sétima raça, de elfos, surgiu, eu fiquei todo orgulhoso, pois encaixou no que eu estava pensando. Eu queria dar uma abraço no Felipe!

Outra questão que conversei muito com os leitores, e foi um ponto forte do texto, é a associação da identidade das raças com as artes. Os anões à escultura, os kaorshs à pintura, os sinfos à música e, finalmente, os humanos à escrita. Eu tinha sentido essa lacuna até ver Aelian lendo os textos antigos e se transportando ao passado, ficou bem clara a ligação dele com a arte. E, ao mesmo tempo, ficou bem clara a relação de poder com o corte à manifestação artística.

Essa relação do domínio sobre a cultura durante a dominação do povo é feita com maestria também, ao restringir as manifestações culturais à adoração a Una, eles criam um reforço à própria relação de poder. Ao tirar uma das cores, ela simboliza exatamente a quebra com o natural, curvando a própria arte à Deusa, isso curva a cultura e o próprio povo. A força que essa análise traz é linda.

A questão do poder, atrelado à religião, com um caráter distópico, num mundo medieval, também foi um diferencial imenso, e é onde acredito residir o principal ponto de discussão do livro.

Perceber essas linhas se entrelaçando é muito bom, a narrativa consegue ser firme e bem construída.

Outra coisa que me deixou muito feliz foi a atenção do Felipe ao escrever as cenas do Aelian, durante algum tempo ele não tem a mínima intenção de participar de qualquer revolução. E não é por conta de alguma jornada do herói, medo, frustração nem nada. É porque ele acredita naquilo. Ele é parte do sistema, está lá embaixo, quase na base de poder, sofrendo diariamente, e ainda assim aceita. É difícil trabalhar isso na narrativa, normalmente vemos protagonistas rebeldes, que sofrem e guardam um sentimento de rebeldia que cresce e explode durante o livro. Mas aqui não, ele não consegue conceber algo diferente daquilo, é como o mundo se apresenta a ele, e é como ele lida com aquilo. Sua frustração é com o líder imediato, com os próximos dele, mas ele não consegue nem ousar questionar o sistema. E é fantástico como isso representa a nossa própria sociedade.

O que nos leva a um dos pontos principais do livro, ele é uma alta fantasia, claramente. É um mundo novo e ímpar, mas o Brasil está estampado na escrita. Seja por se passar na periferia, com pessoas à margem da sociedade, uma visão de amor e cuidado com quem é menor, com quem está vulnerável, um amor e cuidado que brasileiros conhecem e que o Castilho traz com um primor incrível.

Amei como a kaita tem uma pegada linda baseada na capoeira! Esse tipo de elemento, assim como os assentamentos que remetem às favelas, conseguem criar uma empatia imediata aos brasileiros, sem restringir os outros leitores de modo algum, continua sendo alta fantasia, mas dá um orgulhinho. E é ainda mais fantástico, pois a kaita é usada como celebração com música e ritmo, dançada em duplas, e os movimentos são usados em lutas, com um ritmo que se passa na mente dos praticantes, o que reforça toda inspiração.

Uma das minhas reclamações, que encaixa com esse ponto, é que queria ver mais da Cora. A anã representa um estereótipo perfeitamente brasileiro, ela é crente em Uma, não vê os defeitos (dela ou do sistema) e, mesmo quando tudo está ruindo, luta pela sua fé, acima de qualquer raciocínio. Fiquei emocionado com essas sutilezas e construções do Castilho.

Outro lance fantástico foi a questão do gênero. Sim, o lance das Kaorshes é lindo, mas tem algo mais sutil e malandro que o Felipe fez. Os pais de Aelian são construídos aos poucos, apresentados não como vilões ou heróis, mas como humanos que erram na tentativa de uma vida melhor para o filho. Acabamos os amando e entendendo, criando uma empatia com eles. E então, lá na frente, no último terço do livro, é revelado, em um único parágrafo que é tratado com naturalidade pelos personagens, que são dois pais. Isso é tão sutil e lindo, uma malandragem que traz confusão a quem poderia ser contra o casal e um sorriso a quem percebeu isso. Eu sorri e quis (novamente) abraçar o Felipe!

O cuidado com a construção é claro, nos arcos individuais que se misturam e entrelaçam, trabalhando marginais à questão política principal, além dos pontos de virada que vem nos momentos esperados, mas, muitas vezes, diferente do que esperávamos.

Bom, é isso. Agradeço por ter chego até o fim, e mais: esse texto foi produzido graças aos apoiadores do Padrim (www.padrim.com.br/laurokociuba), se quiser apoiar mais textos assim, além de recomendar livros, análises e tudo mais para mim, apóia lá! 😉

Espero que tenham gostado da análise! ❤

Binti e Nnedi Okorafor: para lá do padrão

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Todos que participam ativamente em grupos de literatura, dão ao menos uma espiada nos prêmios (como Hugo ou Nebula, para citar dois dos mais famosos), e tem papos com seus amigos escritores sobre representatividade e autores um pouco “fora do eixo”, já ouviram falar sobre Nnedi Okarafor.

Nnedimma Nkemtili Okorafor tem 42 anos e já escreve há tempos, é americana com ascendência nigeriana, e a África tem um papel importantíssimo em seu trabalho. Desde 2001 tem recebido prêmios por contos e novelas menores, além de ter sido indicada para o Nebula em 2010. Mas foi em 2016, com a novela Binti, premiada tanto com o Nebula quanto com o Hugo, além de ter sido finalista do British Science Fiction Association Award.

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Estudo de capa, por David Palumbo.

Quando a Amazon fez uma promoção imperdível, eu resolvi que essa iria furar minha lista de pendências, e entendi perfeitamente o motivo das premiações: Binti é diferente, linda e funciona, é o tipo de leitura que fazemos com um sorriso.

É um livro curto, curto mesmo: 96 páginas segundo o Kindle, lido facilmente em um dia. É uma obra de ficção científica ambientada em um futuro não especificado, aliás esse é outro ponto da história, acredito que, exatamente pelo perfil de novela rápida, a autora não se aprofunda tanto no worldbuilding e foca mais em contar a história.

Acompanhamos Binti, uma humana nascida e criada em um vilarejo Himba, que são famosos por viverem isolados do mundo, com seus costumes e tradições, além de trabalharem muito a tecnologia. A protagonista é filha de um talentoso construtor de astrolábios, o que entendi ser o equivalente aos nossos Smartphones numa versão absurdamente mais evoluída.

O talento dela na matemática, mais desenvolvido ainda no trabalho com o pai, a destacou nas provas para a Universidade Oomza. O livro se inicia com Binti embarcando na nave que a levaria para a universidade, indo contra tudo que sua cultura preza. E é nessa viagem curta que tudo acontece.

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Estudo de Capa por David Palumbo.

A representação dos Himba como africanos ficou clara, pelo menos para mim, com a associação a um comportamento mais fechado, sofrendo preconceito de outros humanos pelo tom da sua pele, pela mistura que passam no corpo, que também passam nos cabelos trançados e presos em padrões tradicionais.

A história é sobre Binti enfrentando tudo que a representa, em busca do que ela acredita, de seu próprio potencial. E em menos de cem páginas nós acompanhamos uma evolução incrível na personagem, mudando e se descobrindo, enfrentando preconceitos e aprendendo a se impor.

Durante a leitura, vamos criando paralelos com a história e o nosso mundo, fazendo-nos pensar: o que acredito ser uma função primordial de toda arte. Mas, é aqui que Nnedi se destaca, isso é feito com uma sutilidade e maestria ímpares, de modo que não é algo forçado ou desconfortável. Ela acende algumas luzes e sussurra ideias em nossos ouvidos sem que percebamos, e acabamos terminando o livro diferentes do que quando começamos. Uma obra incrível sobre racismo, preconceito, feminismo, independência, livre-arbítrio… temas difíceis e importantes, que marcam e engrandecem o texto.

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Ilustração da Capa, por David Palumbo.

Eu senti que no final a narrativa ficou um pouco mais rápida, eu queria mais descrições e explicações sobre o ambiente, sobre as raças alienígenas, sobre o mundo. Além de que algumas das ideias exploradas na parte da Ficção Científica, como explicações e justificativas sobre a viagem espacial e nas tecnologias ficaram meio vagas.

Mas é compreensível: o foco da narrativa é a mudança e evolução íntima da personagem, e isso é explorado de modo genial. Acho que é a tendência de um livro ótimo e curto é fazer com que desejemos sempre mais.

capinhabinti.jpgÉ fantástico ver um trabalho que sai bastante do “lugar comum” da fantasia e ficção científica está recebendo tantas premiações, elogios e conseguindo um lugar de destaque. Isso abre as portas para mais fantasias representativas, para mais autores africanos, asiáticos e – por que não – latinos ousarem e acreditarem. A diversidade pode ser impressa também na fantasia, sempre!

Com certeza vou correr muito atrás dos outros trabalhos da autora, além de começar daqui a pouco a continuação de Binti, lançada esse ano. A novela está num preço bom na Amazon, normalmente abaixo de R$10,00, vale muito seu investimento! Se quiser, confira aqui: http://amzn.to/2n5kOaF

A Mitologia Nórdica de Gaiman

Quando Neil Gaiman anunciou que faria um livro chamado “Mitologia Nórdica”, eu fiquei com um pouco pé atrás. Não por duvidar da habilidade dele, qualquer um que converse comigo sobre livros sabe da minha admiração por Gaiman, mas porque eu esperava um anúncio da sequência de “Deuses Americanos” ou “Lugar Nenhum”.

Mas, conforme os anúncios do livro foram saindo, eu fui trabalhando a ideia. A capa épica me chamou a atenção: o Mjolnir enorme, em destaque. Então a Intrínseca, que finalmente está dando a atenção merecida ao autor, anunciou que lançaria pouquíssimo tempo depois a edição nacional. E os tentadores cupons de pré-venda na Amazon me deixaram com vontade de conferir.

Resolvi arriscar o e-book em inglês e aqui estamos.

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O livro é exatamente o que o título apresenta, Mitologia Nórdica. Não é uma releitura das lendas nos dias atuais (Deuses Americanos), ou uma inspiração nos deuses numa aventura medieval (Odd e os Gigantes de Gelo), Gaiman pesquisou em poemas antigos, textos milenares, buscando a versão mais original que pudesse das lendas nórdicas.

É uma história longa, e não é creditada a ninguém: há assassinato nela, e enganação, mentiras e tolice, sedução e perseguição. Escutem.

Então temos a origem do mundo, da vida e dos deuses, Odin, Loki, Thor, e todos os outros, até o Ragnarok. Lendas que ouvimos em histórias contadas e em traduções de traduções, mas que aqui se apresentam narradas por Neil Gaiman.

A introdução do livro, que mostra a criação dos deuses, cerca dos três ou quatro primeiros capítulos, peca um pouco nesse ponto. Ao contar sobre a criação, descrevendo a origem dos personagens que já conhecemos e do mundo, nós passamos por um território conhecido em geral; e, nessa introdução, Gaiman não tem o espaço para atingir o melhor da sua narrativa. Então acaba sendo um pouco cansativo, mas é um trecho curto, e rapidamente vamos para as lendas e histórias mais curtas, o que traz a redenção imediata à obra.

Neil Gaiman consegue trazer vida aos deuses e gigantes, dando a eles ações e diálogos geniais, com trejeitos e características que nos remetem aos personagens já conhecidos. Mas temos ainda um adicional único: o toque de Gaiman, que traz uma sagacidade e malandragem a cada um eles.

– Loki, – disse Thor. – Loki fez isso.
– Por que você acha isso? – disse Sif…
– Porque – disse Thor, – quando algo errado acontece, a primeira coisa que eu sempre penso é “É culpa de Loki.” Economiza um bom tempo.

As histórias bizarras e as vezes incoerentes vão sendo construídas pelo autor de modo agradável, como só ele sabe fazer, nos apaixonando e fazendo odiar os deuses pelos seus defeitos e qualidades (que normalmente são poucas, bem poucas). É possível ver nas lendas o cuidado e amor de Gaiman pelas lendas, o prazer que ele tem em recriá-las, emendando e preenchendo as lacunas com diálogos e ações que são totalmente dele.

CzuZ0kGXEAUfbIeAos que temem uma narrativa infantil, não se preocupem. Temos muito sangue, membros amputados, campos de sangue vermelho e negro, entranhas amarrando parentes e violência. Afinal, é mitologia nórdica, e isso não poderia faltar. Em alguns poucos momentos da narrativa, o narrador interage com o leitor, um ou outro parágrafo entre parênteses, mas que destoa um pouco do clima geral da narrativa, pois dá um teor mais juvenil. Nada que prejudique a leitura, mas poderia ser dispensável.

A característica principal do livro é o caráter de lenda antiga, a narrativa simples e com a lição de moral, com uma lógica própria do estilo que normalmente serve para explicar algum fenômeno desconhecido. Aprendemos sobre o sol, as estrelas, a lua, sobre as marés, terremotos, aprendemos sobre o início e vemos o fim.

Também achei pouco, eu queria mais lendas para preencher o livro, temos várias, mas elas passam muito rápido e deixam o gosto de querer mais, com certeza.

A edição da Intrínseca está vindo com capa dura e a capa original, com uma agilidade surpreendente! Se quiser aproveitar a pré venda, dá pra pegar um desconto de 20% usando o cupom NORDICA20 e combar mais R$10 de desconto usando o cupom MARCO10! O link para compra na amazon tá bem aqui: http://amzn.to/2m7B51A

Aniquilação

DSCF8745.JPGEu peguei Aniquilação (Trilogia Comando Sul #1), de de Jeff Vandermeer, apenas por conta da indicação da Barbara e do Daniel num dos episódios do Abdução para a Black Friday. Digo, eu achava a capa linda, mas não me passava a impressão de ser uma história que eu gostaria.

Não tinha como eu estar mais errado: aniquilação é uma história original, instigante, estranha, tensa e encantadora. O gênero do livro é o New Weird (Novo Estranho, ou Esquisito, numa tradução livre), nesse caso fica meio pras bandas da Ficção Científica, mas não tanto, visto que se passa num tempo bem perto do atual.

Antes de começar, devo dizer que é um daqueles livros que terminam com muito, mas muito mais perguntas do que respostas, mas isso é construído a cada página de um modo genial e sem falhas, de um modo que nos fisga e faz imaginarmos possibilidades.

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Javali – Aniquilação, por vicioussuspicious.

A trama gira em torno da Áera X, um território geográfico, principalmente definido por uma ilha, onde singularidades começaram a acontecer. O domínio do espaço pela natureza, com plantas e animais invadindo construções; alterações de terreno e clima; desaparecimento de pessoas e incompatibilidade de eletrônicos com o espaço.

A organização Comando Sul começou a enviar equipes para explorar, delimitar e estudar a Área X. Essas expedições começaram a sofrer desastres, como homicídios, tiroteios suicídios em massa, desaparecimentos e mudanças de personalidades. O livro mostra a décima segunda expedição enviada para o local, formada dessa vez apenas por mulheres.

Depois de algum tempo na leitura, percebemos que o livro é o diário de uma das participantes da expedição: a bióloga. Cada uma delas tem uma especialidade, e não há nomes de personagens, elas são referenciadas pela sua profissão e características.

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Mapa da Área X

Como o livro é escrito do ponto de vista de uma das personagens, com suas impressões e interpretações dos fatos, a nossa segurança do que está acontecendo é um pouco relativa. Há momentos em que não ficam claros os fatos e, principalmente, o quanto o ambiente está influenciando as ações da protagonista. Mas isso é trabalhado de um modo tão genial e sutil pelo escritor, que a empatia com a bióloga é clara, tornando a leitura dinâmica e vendo as lacunas como parte essencial da própria narrativa.

A evolução da história é belíssima também, uma ficção que começa relativamente simples e clara, e aos poucos vai passeando pelo drama, suspense, horror e – por que não? – pelo non-sense até atingir o ápice nas últimas páginas, arrancando perguntas desesperadas dos leitores, feitas com um sorriso no rosto (agridoce, claro). Mistérios psicológicos, que nos fazem questionar a existência e realidade de nós mesmos (como narradores e protagonistas) e do ambiente onde vivemos, numa narrativa curta e simples, mas extremamente longe de rasa.

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Numa tentativa de rotular, eu diria que é uma mistura de Lost (a primeira temporada, que foi só o que assisti), Arquivo X e A Ilha do Doutor Moreau: uma mistura que acredito ficar próxima o bastante para instigar a leitura! É um livro sobre a força da natureza, a fraqueza das nossas certezas e o questionamento dos limites que definem um ser humano.

É assim que a loucura do mundo tenta colonizar você: de fora para dentro, forçando você a viver aquela outra realidade.

A edição da Intrínseca é ótima e segue a capa original. Como eu disse antes, não seria um livro que compraria pela capa, mas dá pra entender o motivo da escolha dela, arrisquem! Além disso, os detalhes como ilustração no verso da capa e nas folhas editoriais são um charme que agregam muito. A edição é muito bem traduzida por Braulio Tavares.

Para quem quiser aproveitar, o livro volta e meia está na promoção, vale muito a pena, confiram:

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O Autismo e a Fantasia

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Dom Quixote, por leventep.

Quando recebi o possível diagnóstico de Autismo no meu filho, um monte de coisas passou pela minha cabeça, um reset de expectativas, muita pesquisa no google, tudo numa tentativa de aprender mais sobre o autismo e tentar me preparar para fazer meu trabalho: ser o melho pai. Ah, e peço desculpas se houver algum equívoco, meu conhecimento é prático e um pouco pesquisado, e as minhas intenções são as melhores. Mesmo.

E tenho que admitir uma das coisas que mais me chateou, principalmente por ser um escritor de fantasia, sempre havia nos artigos e sites a frequente limitação na parte da fantasia, de ler ficção, da dificuldade do brincar (de casinha, carrinho, a questão do imaginar).

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Auri e Kvothe, por Manweri.

Mas o ser humano é incrível, nos mesmos artigos e profissionais que falavam sobre as limitações e características do TEA (Transtorno do Espectro Autista), também mencionavam os benefícios de um diagnóstico precoce, e da plasticidade do cérebro, de contornar as limitações e criar atalhos para facilitar o desenvolvimento de habilidades. Assim, ensina-se a falar, olhar nos olhos, comunicar, e ensina-se o prazer disso, a alegria em um bom dia, a felicidade em se fazer compreender e, principalmente, em compreender. Vejo, no caso do meu filho, uma evolução enorme no quesito brincar, de identificar uma pelúcia do Bidu na animação da Turma da Mônica, de cantarolar as músicas do Thomas ao falarmos de trens, de dar comida para as bonecas dele. Nós podemos, enfim, limitar as limitações, não deixando que sejam elas a definir o indivíduo.

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Lisbeth Salander, por alicexz

E isso tudo me fez voltar à questão da fantasia.

Como leitor, eu vejo vários personagens com características que remetem imediatamente ao TEA: Lisbeth Sallander (Millenium: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres – Mikael Blomkvist), Auri (O Nome do Vento – Patrick Rothfuss) e Renarin (The Way of Kings – Brandon Sanderson), além de vários outros. Personagens que tem as características

Renarin
Renarin

mais ou menos evidenciadas, talvez exageradas em alguns pontos (ou não tanto), mas estão ali, características que vemos nos nossos filhos e conhecidos, um reconhecimento e imediata simpatia. E mais que isso, um orgulho, pois alguém notou e falou sobre isso. Alguém que eu admiro pra caramba.

symmetra
Symmetra

Além disso, mais recentemente, a Blizzard confirmou uma suspeita de alguns fãs. Uma personagem, Symmetra, do jogo Overwatch, tinha algumas falas e atitudes peculiares características, não demorou para os comentários surgirem, levantando o questionamento à empresa, que confirmou o autismo da personagem. Algo que deixou a comunidade gamer feliz, e me deixou, como pai, orgulhoso!

Então eu me toquei que esse pode ser um caminho para o tratamento, seja de crianças, adolescentes ou adultos: a representatividade. Perceber algo de si no personagem lido, algo tão íntimo que faz parte do que o define, faz uma diferença enorme. A identificação e empatia pode ajudar demais na imersão, em entrar na história, participar e conseguir transcender o significado do texto para algo pessoal, o personagem funcionando como uma base, uma âncora para ele dentro da história, um lugar familiar onde ele se sinta seguro.

Bem, é muito difícil para um artista trabalhar a representatividade? Tentar sair de dentro de si e entender o outro? De modo íntimo, crível e natural? Com embasamento e pesquisa? Sim. Muito. Muito mesmo. E isso, eu acredito, é algo que motiva muitos artistas. Então é um pedido meu, um chamado coletivo, não para uma antologia, mas sim algo livre, sem limites: faça uma arte para um autista. Escreva um pequeno conto para uma criança, crie uma canção especial, afirme um personagem seu com TEA. Você pode ser um agente de mudança, é só fazer a boa arte, e sei que ama isso.

Auri.pngEu vou trabalhar o máximo possível para isso, na minha página e nos meus textos. O Dia Mundial de Conscientização do Autismo está chegando, é no dia 02/04 e, atualmente, mais de 1% das crianças nascem com algum nível de TEA, o que representa muita gente. Muita gente mesmo. E uma ação sua hoje pode fazer toda diferença.

E, se você gosta de livros, quadrinhos, e ilustrações, faça uma análise das artes que consome, dos textos que lê, dos artistas que admira, o TEA é algo muito presente e, as vezes, por ignorância podemos gerar um preconceito.

A empatia e podem ajudar a quebrar vários limites e barreiras. Participe.

#FantasiaParaAutistas

Jardins da Lua e a redefinição do épico

‘Jardins da Lua’ é o primeiro livro da série ‘O Livro Malazano dos Caídos’, escrita por Steven Erikson. Eu terminei de ler o livro há cerca de meia hora e estou ainda na empolgação do final. Dizem que é uma hora meio ruim para escrever uma resenha, mas e daí? Como diria o próprio Erikson, vá na jugular! E, novamente, vou tentar focar na narrativa e construção do livro.

Agora que estas cinzas esfriaram, abramos o livro antigo.
Estas páginas manchadas de óleo narram as histórias dos Caídos,
de um império desgastado, com palavras sem calor.
A lareira se apagou, seu brilho e suas centelhas de vida são apenas memórias
em olhos baços – o que conduz minha mente, o que matiza meus
pensamentos, enquanto abro o Livro dos Caídos
e inspiro profundamente o aroma da História?
Ouça, então, estas palavras levadas nesse sopro.
Estas histórias são as histórias de todos nós outras e outras vezes.
Somos História revivida e isso é tudo, sem o fim que é tudo.

É o primeiro livro que terminei em 2017, e devo dizer que foi uma das maiores aulas de narrativa, trama, controle e sutileza que eu tive na minha vida. Nesse exato instante eu afirmo (talvez seja a empolgação, talvez não) que Steven Erikson é o escritor de fantasia mais talentoso que eu tive o prazer de ler. Mas espere, não entenda com isso que é uma leitura rápida e voraz, é exatamente o contrário. Jardins da Lua foi, de longe, a fantasia mais difícil que eu li até hoje e, pasmem, esse é um dos motivos pelo qual é tão boa.

caipirinhaeparan.jpgA história gira, basicamente, na preparação e ataque à uma cidade. O Império Malazano, liderado no período do livro pela Imperatriz Laseen, deseja conquistar as últimas cidades livres do continente. Começamos o livro com a batalha por Pale e, durante o restante do volume, acompanhamos as tramas que cercam a conquista do Darujhistan, uma das maiores cidades do continente de Genabackis e próximo objetivo da imperatriz.

Assim que conheci um pouco mais sobre a obra, eu soube que ela nasceu de uma campanha de RPG jogada por (não apenas, imagino) Steven Erikson e Ian Esslemont. E, a cada cena narrada é possível perceber isso, a narrativa direcionada ao ponto de vista restrito dos personagens, as ações particulares e, algumas vezes, inesperadas, com resultados influenciados por dados. E, como um jogador (não tão ativo hoje quanto gostaria, infelizmente) e mestre, essa característica é gratificante.

Eu comecei a ler duas vezes, em dois momentos distintos de 2016, eu acho que estava com uma pretenção/expectativa torta do livro, pois no primeiro capítulo eu acabava por deixar de lado. Um dos motivos era o inglês, escrito com um virtuosismo (para mim, que desenvolvi na prática o inglês do segundo grau, era de um nível ainda distante) incrível, usando mais do que um vocabulário extenso, mas verbos e expressões raras que acabam por se tornar corriqueiras com o decorrer do livro. O outro motivo era eu mesmo, que tentava entender completamente a história conforme avançava. Na terceira tentativa eu apenas segui a leitura, abrindo mão de expectativas, principalmente. E devo dizer: que experiência fantástica.

– Tenho certeza que eram homens bons, os que você perdeu.
– Bons em morrer – ele disse.

raest.jpgSteven Erikson não se importa em levar o leitor pela mão nas suas histórias. Era uma característica que eu dizia existir em vários autores, parte da questão de não subestimar o público. Mas, depois de ter lido Jardins, eu tive a real noção do que é ser jogado em meio a uma história e tentar entender os pontos. Com explicações e informações sutis, escondidas em parágrafos aparentemente descritivos, Erikson força o leitor a construir o que consegue juntar da história e, mais de uma vez, o faz voltar uma, duas ou noventa páginas para meia dúzia de palavras que explicam um ponto crucial da trama.

A capacidade do autor de dividir as linhas narrativas, que vão se apresentando com o decorrer dos capítulos e acabam misturando e se misturando com os personagens, cada um com duas ou três linhas narrativas diferentes. Houve três tramas que se desenrolam desde o início do livro, mas que só fui entender e perceber plenamente quando estava nas últimas duzentas páginas do livro, tamanha a sutileza do autor.

Outra característica genial é a capacidade de manter um ritmo constante durante todo o livro, assim que narrativa se inicia, o ritmo vai aumentando, com os trechos de cada trama ficando mais curtos, diminuindo de seis para quatro páginas, e depois para três. E conforme avança, com a ampliação das tramas, divisão de grupos e separando os personagens, elas vão ficando mais rápidas, com trechos de meia página que fazem o leitor ir de um lado para o outro, mas o crescimento é tão natural que a leitura avança do mesmo modo que a escrita; fazendo com que devoremos as páginas para responder cada uma das nossas perguntas, e para cada linha atada, outros três questionamentos são jogados no ar.

Ela vira todos eles antes, aqueles rostos. Ela conhecia todos eles, conhecia o som de suas vozes, sons derivados de emoções humanas, sons limpos e puros com pensamentos, e sons que vagavam na fenda entre os dois. Está aqui, ela imaginou, meu legado? E um dia eu serei apenas mais uma daquelas faces, estática na morte e maravilhamento.

A construção do mundo é outra pérola. Conforme avançamos, vamos tendo cada vez mais noção da grandiosidade do universo criado por Erikson e Esslemont, a mitologia criada é única, com deuses, rituais e religiões particulares; raças diferentes novas e extintas; tramas políticas escondidas dentro de outras tramas; uma história de centenas de milhares de anos, que aos poucos vai se apresentando e rascunhando em nossa mente.

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Então, você pensa que com essa linguagem rebuscada, trama complexa, e wordbuilding profundo e imenso, os personagens acabariam ficando de lado. Sinto lhe informar, mas Erikson está longe de decepcionar nesse ponto. Whyskeyjack, Ben Ligeiro, Dujek Umbraço, Piedade, Tattersail, personagens com tantas camadas que acabamos nos perdendo, envoltos pela personalidade de cada um deles – amando os defeitos e qualidades de cada um deles. Os diálogos pensados na característica de cada um, se há algum traço de nobreza, se tem passado militar, sotaques, manias, elementos aparentemente secundários, mas que trazem uma realidade ímpar a cada um dos personagens.

Eu acho que uma boa tentativa de explicar o livro, ou pelo menos a sensação que tive, foi a de ver um artesão trabalhando em um mosaico. Assim que ele coloca as peças é difícil entender o padrão, muito menos a imagem que ele deseja mostrar, mas aos poucos, bem aos poucos, vamos percebendo a imagem e a grandiosidade de tudo. A diferença é que Steven Erikson lhe entrega as peças nas mãos, para você (inexperiente) montar enquanto ele vai explicando a metodologia de modo técnico e profissional. Ah, e percebe-se algumas peças faltando, não tem os cantos, há algumas peças isoladas das outras e algumas que colocamos em um lugar diferente e só arrumamos muito tempo depois. Mas o prazer de quando vê-se a arte tomando forma, a grandiosidade daquilo, e a sua participação em ajudar a montar aquilo, é imenso. E, para mim, é aí que mora a genialidade de Erikson, na capacidade de reunir isso tudo num cenário absurdamente épico e com uma naturalidade assustadora.

Ah, e ele não tem dó de você. Nenhum. Em meia página ele me fez amar um personagem secundário, criou uma empatia ímpar, para na meia página seguinte matá-lo.

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Minha noção de épico, de não subestimar o leitor, de ousadia literária e, principalmente, de narrativa firme e madura foram completamente atualizadas.

A Arqueiro teve uma coragem similar para trazer essa edição ao Brasil. Com um trabalho gráfico lindo e digno da série, com uma tradução apaixonada e competente da Carol Chiovatto, essa saga estreia no Brasil com chave de ouro, elevando o nível da estante de cada um dos brasileiros amantes de Literatura Fantástica.

Bom, espero que esse post tenha, no mínimo, feito com que se interesse. O livro está com um preço ótimo na Amazon! Confira:

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Compre o seu e participe da Leitura Conjunta de um dos melhores grupos de literatura fantástica no Brasil! 😀

Ah, um quote do prefácio que encaixa como uma luva aos escritores:v

Uma última palavra aos escritores iniciantes que estão por aí: ambição não é uma palavra proibida. Que se dane a moderação. Vão direto na jugular. Escrevam com garra, com energia. É uma jornada mais difícil, com certeza, mas, acreditem, vale muito a pena.